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October 2019

Rendas de Bilros

A origem das Rendas de Bilros de Vila do Conde remonta ao século XVI, mas a sua génese ainda é controversa. Em todo o caso, presume-se que esta técnica tenha sido trazida do Norte da Europa por marinheiros e comerciantes, que mantinham estreitas ligações com o entreposto comercial da Flandres.
Em plena epopeia dos Descobrimentos, Vila do Conde conheceu um desenvolvimento que a marcou até aos dias de hoje. A construção naval em madeira ainda se mantém, assim como a feitura das delicadas rendas de bilros, que a tradição quer inspiradas na espuma das ondas do mar e ligadas a uma localidade piscatória. Poesia?
Certo é que o primeiro documento oficial onde as rendas são referidas é a Pragmática de 25 de Junho de 1560, mandada publicar por D. Sebastião para controlar os excessos de luxo. Após esta data, outras leis semelhantes foram publicadas, mas só a Pragmática de D. João V, publicada em 24 de Maio de 1749, veio colocar um travão na ostentação e no luxo da vida de corte de então.
A partir daqui, com pesadas multas para quem não respeitasse a ordenação régia, as rendas de bilros sofrem grande golpe, até que a Câmara Municipal de Vila do Conde decide contactar com outras localidades do norte, no sentido de combinarem esforços para que as rendas de bilros não fossem tão afectadas. E os seus intentos foram alcançados, graças a Joana Maria de Jesus, rendilheira vilacondense que, em representação  da todo o Norte, se desloca à Corte, onde consegue ser recebida e escutada. Assim, em 1751 as proibições sobre as rendas são levantadas e as rendilheiras voltam ao trabalho com afinco redobrado, uma vez que o produto da venda das rendas era parte substancial do sustento familiar.
No final do século XVIII, as rendas eram vendidas por todas as províncias e, no século seguinte, mantêm grande projecção, tendo estado presentes na Exposição Universal de Paris, em 1867.
Com o desenvolvimento industrial e a mudança dos estilos de vida, o uso das rendas entra em declínio, perdendo em qualidade e quantidade. Nos princípios do século XX Vila do Conde tem a sua produção estagnada, e só com o surgimento das escolas de rendeiras se recupera a tradição. A Escola de Artes e Ofícios viria a ser criada em 1919, graças ao empenho do Dr. António Maria Pereira Júnior.

O documento mais antigo onde as rendilheiras são referidas é uma Acta de Sessão da Câmara de Vila do Conde, datada de 4 de Maio de 1616. Nela se escreve:

“Que as rendas entrem no mester das costureiras.
E logo acordaram eles Oficiais da Câmara que porquanto nesta vila havia muitas queixas das costureiras e pessoas que pagavam para o mester da folia das moças o qual era de muito gosto e as ditas costureiras eram poucas e não podiam suprir aos ditos gastos, acordaram e assentaram que daqui por diante todas as pessoas que nesta dita vila faziam rendilhas para vender cadimemente entrem igualmente no dito mester e o tenham no ano que lhe couber sendo a tal rendilheira de qualidade que os possa ter e aquelas pessoas que forem de qualidade que não caiba nelas o dito encargo da paga como da mordomia, ficará na disposição dos Oficiais da Câmara proverem nisso como lhes parecer que convém. Paulo de Beça Coelho escrevi. E declararam eles Oficiais que não seriam constrangidas a pagar para o dito mester as mulheres e filhas dos homens nobres desta vila posto que sejam rendilheiras. Paulo de Beça Coelho o escrevi”. 

ADAPVC

Associação para Defesa do Artesanato e Património de Vila do Conde

O desenvolvimento da Indústria Têxtil no Vale do Ave nos anos 70 teve, naturalmente, fortes reflexos em Vila do Conde onde estavam instaladas grandes unidades fabris.
Com salários aliciantes para a época, muitas foram as mulheres de Vila do Conde que se sentiram atraídas pelo trabalho operário, assim abdicando de outras tarefas bem menos rentáveis, nomeadamente das Rendas de Bilros, até então um importante complemento dos magros orçamentos familiares.
Em 1978, a Câmara Municipal de Vila do Conde sentiu que a arte de dedilhar os bilros corria sério perigo de extinção, já que poucas eram as mulheres a dedicarem-se a esta arte com tradição documentada desde 1616. Decide-se, então, criar condições para incentivar quantas ainda sabiam trabalhar na almofada. Como primeira acção, a Autarquia vilacondense promove uma Feira de Artesanato, dando destaque às Rendas de Bilros, mas também convidando artesãos de outras artes a participarem no certame.
Em 1980, também por iniciativa da Câmara Municipal, é criado o Centro de Artesanato, local onde é garantida a aquisição de toda a produção de Rendas de Bilros e, simultaneamente, posto de venda da arte vilacondense. Pouco vocacionada para esta tarefa, surge, no seio de pessoas ligadas à Autarquia, a necessidade de haver uma equipa que se dedique a esta tarefa com mais empenho e dedicação.
É, assim, criada a ADAP-VC Associação para Defesa do Artesanato e Património de Vila do Conde, a que a Câmara Municipal confia a gestão e promoção do Centro de Artesanato e a realização da Feira nacional de Artesanato que, desde 1978, se continua a realizar.
Já com a ADAP a liderar a promoção e preservação das Rendas de Bilros, muitas outras iniciativas são realizadas, nomeadamente a criação do Prémio FNA (1990), o Núcleo Museológico instalado na Casa do Vinhal (1991) ou os Desfiles de Moda com convites a grandes estilistas portugueses que incorporaram Rendas de Bilros nas suas criações.
Desde então, a ADAP-VC continua a sua acção de inventariação, preservação e promoção das artes tradicionais de Vila do Conde.

Boas vindas

Quando, há 38 anos, realizamos a 1ª. FEIRA NACIONAL DE ARTESANATO, não vislumbrávamos o contributo que, sem falsas modéstias, estávamos a dar para salvaguarda e valorização das artes e ofícios tradicionais da cultura portuguesa, alguns dos quais em declarada via de extinção.

Desde então, seguindo o exemplo Vila do Conde, certames deste género multiplicaram-se de norte a sul do país, facto de que nos orgulhamos por estarmos convictos de que o artesanato nacional carece e precisa de múltiplos e diferenciados palcos para se afirmar. A Feira Nacional de Artesanato de Vila do Conde (FNA) não pode responder a todas as exigências do setor, embora se mantenha o certame de referência e de maior dimensão.

A afirmação da FNA deve-se também à projeção que lhe imprimiu a comunicação social, que desde a primeira edição acarinhou esta iniciativa, às câmaras municipais que, vendo na Feira de Artesanato de Vila do Conde uma ocasião excecional de alavancar do seu património, apoiaram de forma decisiva e incondicional a presença dos seus artífices neste certame e, naturalmente, aos artesãos que reconheceram o valor e a oportunidade desta iniciativa e lhe deram corpo e massa crítica.

Bem-vindos ao website da Feira Nacional de Artesanato

Ocupando um espaço privilegiado numa vasta área ajardinada no centro da cidade, com cerca de 11.000m2, contando com a presença de duas centenas de artesãos, grande parte dos quais demonstrando ao vivo o seu saber nas mais diversas expressões do artesanato – da cerâmica à cestaria, dos instrumentos musicais à arte pastoril ou dos bordados às rendas de bilros – e cobrindo a totalidade das regiões portuguesas, esperamos que, uma vez mais, 400.000 visitantes honrando com a sua presença a “tradição das nossas tradições”, façam de Vila do Conde o ponto de encontro e da grande festa do Artesanato Português.

Venha daí!

Horário da FNA
de 25 de Julho a 9 de Agosto de 2015

2ª a 5ª – 17h00 – 24h00
6ª e Sábado – 15h00 – 00h30
Domingo – 15h00 – 24h00